Ana Maria Gonçalves ingressa na ABL e se torna a primeira mulher negra entre os imortais. Autora de ‘Um Defeito de Cor’ é eleita com 30 votos e ocupa a cadeira deixada por Evanildo Bechara.
A Academia Brasileira de Letras (ABL) elegeu, nesta quinta-feira (10), a escritora Ana Maria Gonçalves como nova integrante da entidade. Aos 55 anos, ela se torna a primeira mulher negra a ocupar uma das 40 cadeiras da instituição fundada há 128 anos — marcada até hoje por um histórico de exclusão racial e de gênero: apenas 12 mulheres tinham sido eleitas desde 1897.
Autora do premiado romance Um Defeito de Cor, Ana Maria venceu a eleição com 30 votos. Teve como principal adversária a escritora indígena Eliane Potiguara, que recebeu um voto. Outros 11 nomes estavam na disputa. A cadeira de número 33 pertencia ao gramático e filólogo Evanildo Bechara.
Escrito ao longo de cinco anos, Um Defeito de Cor conta a trajetória de Kehinde, mulher sequestrada na África, escravizada no Brasil e envolvida nas lutas por liberdade no século 19. A narrativa é inspirada na figura histórica de Luísa Mahin, mãe do abolicionista Luiz Gama. O livro já vendeu 180 mil exemplares, venceu o Prêmio Casa de las Américas (2007), foi eleito o melhor romance brasileiro do século 21 e virou enredo da Portela no carnaval de 2024.
A bibliografia de Ana Maria é marcada por um caráter intimista e autobiográfico, resultado de pesquisas profundas sobre as heranças africanas no Brasil.
Já publicou contos em Portugal, Itália e nos EUA, onde também morou por oito anos e ministrou cursos e palestras sobre questões raciais. Foi escritora residente em universidades como Tulane (New Orleans, LO), Stanford (Palo Alto, CA) e Middlebury (Middlebury, Vermont).
Ana Maria também é dramaturga e roteirista de peças como Tchau, Querida! (2016), Chão de Pequenos (2017) e Pretoperitamar – O caminho que vai dar aqui (2019), esta última em parceria com a atriz Grace Passô, que aborda a trajetória do artista negro Itamar Assumpção.
Atualmente residente do Rio de Janeiro, é roteirista (Rio Vermelho) e professora de escrita criativa. É co-curadora da exposição “Um defeito de cor” (MAR – Museu de Arte do Rio de Janeiro; MUNCAB – Salvador e SESC Pinheiros – SP), eleita como a melhor exposição de 2022.
Sua eleição é simbólica para o movimento negro e para as mulheres negras, que há décadas denunciam o racismo estrutural das instituições culturais do país. A presença de Ana Maria na ABL representa uma ruptura nesse padrão excludente e o avanço de uma nova memória coletiva no campo da literatura brasileira.





